Referência: ROGERS, Carl. KINGET, G. Marian. Psicoterapia e Relações Humanas 1. Editora Interlivros, 1977.
1. Sobre os autores
1.2. Carl Rogers (1902-1987)
Nascido em Oak Park, Illinois, formou-se em História pela Universidade de Wisconsin antes de se voltar para a Psicologia Clínica na Universidade de Columbia, onde obteve seu doutorado em 1931.
Rogers é o fundador da Abordagem Centrada na Pessoa, uma das correntes fundamentais da Psicologia Humanista. Sua carreira foi marcada pela docência em instituições como a Universidade de Chicago e a Universidade de Wisconsin, além de sua atuação no Center for Studies of the Person em La Jolla, Califórnia.
Principais obras:
- The Clinical Treatment of the Problem Child (1939)
- Counseling and Psychotherapy (1942)
- Client-Centered Therapy (1951)
- On Becoming a Person (1961)
- Freedom to Learn (1969)
- On Personal Power (1977)
- A Way of Being (1980)
1.2. G. Marian Kinget (1910–1999)
Psicóloga de origem belga, Kinget obteve seu doutorado na Universidade de Louvain sob a orientação de Albert Michotte antes de migrar para os Estados Unidos.
Ela se tornou uma colaboradora próxima de Carl Rogers na Universidade de Chicago e, posteriormente, professora titular na Michigan State University, onde lecionou por décadas. Kinget foi fundamental na sistematização e formalização acadêmica da psicologia humanista.
Principais obras:
- The Drawing-Completion Test (1952)
- Psychotherapy and Human Relations (1959, em coautoria com Rogers)
- The Effective Counselor (1962)
2. Contexto da obra
Publicada originalmente em 1959 (e lançada no Brasil em dois volumes pela Interlivros), esta obra representa o esforço de Rogers e Kinget para fundamentar cientificamente a eficácia da terapia não-diretiva. O livro surge no auge da transição do modelo médico tradicional, focado em diagnóstico e cura de doenças, para o modelo humanista, focado no crescimento pessoal.
Enquanto a primeira parte do livro aborda as bases teóricas e a atitude do terapeuta, a segunda parte foca na aplicação prática e na formalização da técnica. A obra é histórica por introduzir formalmente a ideia de que a “relação humana” genuína entre terapeuta e cliente é, por si só, o agente transformador do processo psicoterápico.
3. Resumo Analítico
3.1. Capítulo 1: Uma colocação sobre o assunto
3.1.1. Origem da noção de “não-diretivo”
A obra começa explicando que o não-diretivo não é a ideia central da ACP. A psicanálise predominava no ambiente formativo de Carl Rogers, mas também houve contato com o pragmatismo de John Dewey (1859-1952), resultando num equilíbrio entre teorização e empirismo.
A abordagem de Rogers surgiu organicamente, de modo que quando foi necessário caracterizar sua prática, Rogers utilizou-se do neologismo do não-diretivo.
3.1.2. Aparecimento da noção de “client-centered”
No círculo rogeriano, observou-se que outros terapeutas não obtinham sucesso, pois não havia envolvimento real com os valores e pressupostos da abordagem. A não-diretividade se manifestava apenas como papel interpretado pelo terapeuta, e não como um valor transmitido numa relação concreta com o cliente.
Por esse motivo, Rogers desenvolveu a noção de client-centered como um termo que melhor expõe o espírito da abordagem, que pressupõe uma relação verdadeira com o cliente, pautada em empatia e abertura ao mundo subjetivo da pessoa.
3.1.3. Persistência da noção de “não-diretivo”
A ideia do não-diretivo é difícil de compreender, pois toca diretamente o poder de um indivíduo sobre o outro. A autora compara o impacto do estabelecimento desse princípio por Rogers com a situação do princípio freudiano de sexualidade — com a diferença de que esta, ainda que oculta pela moralidade, é um aspecto inegável da natureza humana, logo, mais aceitável após o tumulto inicial.
Desse modo, é difícil aceitar a postura não-diretiva na esfera da ação, posto que desnuda as relações de poder estabelecidas conscientemente e inconscientemente.
3.1.4. Algumas definições sobre a ideia de não-diretivo
Não é laissez-faire! O princípio da não-diretividade não é o mesmo que neutralidade ou indiferença. O terapeuta rogeriano não deixa de agir, mas busca facilitar o processo de autoresponsabilidade e aceitação do cliente que culmina no ser-livre-para. Trata-se de uma catálise (e não análise).
O não-diretivo é sutil. A pessoa que procura ajuda tende a ver no terapeuta uma figura de autoridade; embora muitos profissionais não admitam, atuam relativamente. A autora ressalta que não-diretivo não significa ausência de julgamento (seria tão absurdo quanto impossível), mas a abstração de juízos morais.
Se não se considera o indivíduo como dotado de valor próprio, tal relação dificilmente será estabelecida. Quer se compreenda a direção como aconselhar, instruir ou como sentido/finalidade, a diretividade está presente, por ser parte da própria natureza humana. Desse modo, o não-diretivo é um ideal, portanto, sempre móvel e não uma prática escrita em pedra.

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